Um ser humano em eterna jornada e
crescimento, como você. Sujeita a erros e acertos o tempo todo, sou uma
aprendiz de tudo em tempo integral. Ocasionalmente, isso me leva a
viver tempos de profunda perplexidade. É fato: nestes quarenta e tantos
anos de vida ainda não consegui compreender a vida em todos os seus
aspectos, há pessoas, atos e fatos que me deixam profundamente
perplexa, quase de cabelo em pé.
E assim vou indo, em eterno movimento, em direção a não sei onde....
mas pressinto que ando na direção certa (para quem não sabe onde ir,
qualquer vento é favorável!).
Entre as pegadas que deixarei impressas ao longo desta jornada humana é
que este blog se inclui, retrato vivo dos pensamentos que habitam minha
mente.
Entre, leia, reflita, divirta-se... ou não, tudo depende de você.
(publicado no diário de Taubaté em 01/10/2009) . .. ... Devo
admitir que sempre tive ao menos um pezinho do meu intelecto fincado
nos reinos do estranho, do diferente, do chamado “oculto”, fato que
constantemente me leva a me interessar por coisas não muito
convencionais.
Acontece que estas coisas, depois de algum tempo,
acabam por se tornar populares, quer por modismos (como o caso da
Índia, país de cuja cultura eu já assimilei vários hábitos há anos e
que agora se tornou “a bola da vez” por conta da novela global), ou por
mero reconhecimento público mesmo, caso da acupuntura, dos florais, da
homeopatia, da iridologia, dos efeitos terapêuticos da meditação e
outras coisinhas assim. Desde muito cedo eu me interesso por assuntos
transcendentes, diferentes, estranhos. Por conta disto, minha
biblioteca é um tanto bizarra, contando com títulos variados que
abordam muitos temas interessantes.
Nestes últimos anos, um
assunto que tem tomado conta do meu imaginário (e de boa parte do meu
tempo livre) é a questão da transição planetária, evento anunciado aos
quatro ventos por muitas tradições filosóficas e/ou religiosas. De
Nostradamus aos índios Hopi, passando pelo webbot, pelo Apocalipse
Segundo São João, pelas previsões de atividades solares anormais pelos
astrônomos e chegando aos Maias (entre outros), temos um mosaico
interessantíssimo de previsões variadas que apontam todos na mesmíssima
direção: o ano de 2012, quando tudo deve convergir para um ponto de
transição após o qual a Terra e sua civilização, tal como a conhecemos,
jamais será a mesma.
Dentre todas estas fontes de informações,
todas absolutamente disponíveis, de forma acessível e democrática, na
internet (basta acessar WWW.google.com.br e digitar profecias),
pretendo abordar as Profecias Maias, para repartir com vocês um pouco
do que andei estudando. É um tema polêmico, que pode suscitar desde más
interpretações ou receios até gargalhadas jocosas de descrença... por
isso sugiro que vocês leiam com isenção de ânimo: se não puder se levar
a sério, com certeza poderá servir como uma ficção e tanto, que irá
entreter seus dias.
Algumas das previsões feitas pelos Maias
parecem estar começando a se precipitar do imaginário na realidade. Os
Maias previram o “fim” desta humanidade centrada no aspecto material da
vida em 21/12/2012 e deixaram sete profecias que ocorreriam antes deste
dia. A quinta profecia disse: quebra da economia mundial. Você liga o
noticiário e ouve: “Pânico nos mercados!”, " Dólar tendo maior alta em
um dia”, “quebra de bancos”, “recessão na economia Americana”, e muito
mais. Acontece que estes acontecimentos foram previstos pelos Maias há
centenas de anos atrás.
Os maias foram um povo com amplo
conhecimento de astronomia e matemática, que adoravam o céu. Eles
previram o colapso de sua civilização (e acertaram) e previram o
colapso da nossa também. Inclusive dizendo a data: 21/12/2012. Antes
desta data, eles profetizaram sete profecias que aconteceriam com o
mundo, que são elas:
1ª Profecia: O final do medo
2ª Profecia: Anuncia que o comportamento de toda a humanidade mudaria rapidamente a partir do eclipse do sol de 11/08/1999.
3ª
Profecia: diz que uma onda de calor aumentará a temperatura do planeta,
produzindo mudanças climáticas, geológicas e sociais, em uma magnitude
sem precedentes e a uma velocidade assombrosa.
4ª Profecia: Diz
que o aumento da temperatura do planeta, causado pela conduta
antiecológica do ser humano e por uma maior atividade do sol provocará
um derretimento de gelo nos pólos (terremotos, tsunamis, enchentes,
furacões e outros eventos climáticos são todos derivados desta condição
do aquecimento e estão acontecendo aos borbotões).
5ª Profecia:
Os sistemas falharão para que o ser humano enfrente-se a si mesmo, para
que ele veja a necessidade de reorganizar a sociedade e continuar no
caminho da evolução que nos levará a entender a criação. O sistema
econômico, que regulamenta, quantifica e põe um preço nas relações do
planeta está errado. A economia do ser humano contemporâneo está
orientada por princípios de agressão e é incompatível com um universo
em harmonia.
Vamos dar uma pausa, porque você ficou coçando a
cabeça! Até aqui tudo aconteceu. É o que se ouve falar: aquecimento
Global, derretimento das geleiras e agora a quinta-profecia está se
cumprindo, a que diz respeito à economia mundial! Mas não se esqueça
que estas profecias foram escritas a centenas de anos atrás! Terminando
esta coluna de hoje, vamos abordar as outras duas profecias que faltam
ser cumpridas:
6ª Profecia: Diz que nos próximos anos aparecerá
um cometa (nota: Marduk, Nibiru/ Planet X) cuja trajetória colocará em
perigo a própria existência do ser humano. (alguns cometas grandiosos
andaram passeando por perto do nosso planeta nos últimos anos, tendo
sido avistados pelos astrônomos apenas quando já estavam absolutamente
perto da atmosfera... por sorte, passaram ao largo!)
7ª
Profecia: Fala do momento em que o sistema solar em seu giro cíclico
sai da noite para entrar no amanhecer da galáxia. Ela nos diz que nos
13 anos que vão desde 1999 até 2012, o centro da galáxia sincroniza
todos os seres-vivos e permite a eles concordar, voluntariamente, com
uma transformação interna que produz novas realidades. E que todos os
seres humanos tem a oportunidade de mudar e romper suas limitações,
percebendo um novo sentido para a vida que não o material. Os seres
humanos que voluntariamente encontrem seu estado de paz interior,
elevando sua energia vital, levando sua freqüência de vibração interior
do medo para o amor, poderão captar e expressar-se através do
pensamento, e com ele florescerá um novo sentido.
E assim deixo
aqui esta introdução, este painel, para voltar na semana que vem
abordando mais profundamente a primeira profecia e, depois, uma outra
por semana. Comentários e mais informações ou bate-papos sobre o
assunto são muito bem-vindos... meublogdepapel@gmail.com
Outro
dia eu li, em algum lugar, que são as leis e as proibições estipuladas
por elas que fazem da nossa sociedade algo possível. Fiquei pasma! Eu
sempre havia pensado que esse papel coubesse ao amor ou à fraternidade!
Mas não, li que devemos agradecer apenas às leis. Como não concordei
com isto, parei para refletir e cheguei a algumas conclusões pessoais
e, assim, venho aqui para partilhar com vocês algumas proibições
criadas por almas mais amáveis e complacentes, mais amorosas e
poéticas. Sim, proibições. Mas não do tipo “Não pise na grama”, “Não
fume”, Não entre sem autorização”. Não, vou falar de proibições outras,
também urgentes e realmente benéficas a todos nós, de proibições que
apenas nos prestigiam e promovem enquanto seres humanos.
Eu,
particularmente, não acreditava e ainda não acredito muito em
proibições, pois minha vida inteira conspirou para me fazer a acreditar
que nada na vida é proibido, nada mesmo; tudo pode ser feito e
vivenciado. Porém, se é verdade que tudo PODE ser feito ou vivenciado,
nem tudo DEVE ser feito ou vivenciado. Por amor a nós mesmos e por amor
ao outro, talvez devamos estar sempre muito atentos ao que é lícito ou
não fazer, pois sermos a causa da desarmonia ou da infelicidade do
outro é a última coisa que deveríamos desejar. E assim, entre o poder e
dever, vamos nos equilibrando pela vida afora, caminhando sutilmente no
fino fio da navalha que separa o bem do mal, o certo do errado, o que
se deve ou não fazer.
Estas proibições a seguir, tão sensatas,
urgentes e carinhosas, eu quero compartilhar com você e quero que você
as respeite e pense nelas, que as leve a sério, certo? E não pense que
elas nasceram da minha mente. Não senhor, elas vieram diretamente dos
pensares de Pablo Neruda. Vamos lá:
“É proibido chorar sem
aprender, levantar-se um dia sem saber o que fazer, ter medo de tuas
lembranças. É proibido não rir dos problemas, não lutar pelo que se
quer, abandonar tudo por medo, não transformar sonhos em realidade. É
proibido não demonstrar amor, fazer com que alguém pague por tuas
dúvidas e mau-humor. É proibido deixar os amigos, não tentar
compreender o que viveram juntos, chamá-los somente quando necessita
deles. É proibido não seres tu mesmo diante das pessoas, fingir que
elas não te importam, ser gentil só para que se lembrem de ti, esquecer
aqueles que gostam de ti.
É proibido não fazer as coisas por si
mesmo, não crer em Deus e fazer seu destino, ter medo da vida e de seus
compromissos, não viver cada dia como se fosse um último suspiro. É
proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar, esquecer seus olhos,
seu sorriso só porque seus caminhos se desencontraram, esquecer seu
passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar
compreender as pessoas, pensar que as vidas deles valem mais que a tua,
não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte. É proibido não criar
tua história, deixar de dar graças a Deus por tua vida, não ter um
momento para quem necessita de ti, não compreender que o que a vida te
dá, também te tira. É proibido não buscar a felicidade, não viver tua
vida com uma atitude positiva, não pensar que podemos ser melhores, não
sentir que sem ti este mundo não seria igual.”
*******
Complementando
(com muito menos brilhantismo, tenho certeza!) os pensamentos do poeta,
enumero outras proibições: desde já fica terminantemente proibido
esquecer-se de se encantar com o azul dos céus, deixar de beber a água
fresca da fonte; fica proibido esquecer-se de celebrar cada encontro,
de chorar cada partida; fica proibido desacreditar da bondade, esquecer
as coisas belas da infância, deixar de brincar livremente sempre que
der vontade. Fica proibido censurar o desejo, essa mola que no
impulsiona sempre para frente e cria universos. Fica proibido viver os
dias futuros sem lamber a colher da massa do bolo, sem enfiar o dedo no
glacê, sem rolar no chão com o cachorro, sem dormir com o gato, sem
beijar a quem se ama, sem dar as mãos a quem precisa. Fica, em última
instância, terminantemente proibido viver sem se enterrar, até o último
fio de cabelo da cabeça, na ampla, benéfica, poética e inestimável
experiência que é a VIDA!
“Os
olhos são as janelas da alma”. E o que é mesmo que essa nossa alma
inquieta tanto espia, estendendo sem parar a sua curiosidade para fora
de nós?
Olhamos as pessoas, seus carros reluzentes, suas roupas
mais ou menos caras, seus corpos mais ou menos magros; olhamos os
outdoors coloridos, cheios de promessas vãs de felicidade; olhamos os
semáforos eternamente fechados para nós; olhamos as vitrines coloridas,
sempre recheadas com os objetos mais ou menos obscuros dos nossos
desejos.
Olhamos, olhamos, olhamos... na verdade vemos quase
nada, mas olhamos tudo o tempo todo, até nos fartarmos, até nos
cansarmos. Olhamos sem ver e olhamos sem parar, olhamos ansiosamente,
colecionando cenas na retina como as praias colecionam grãos de areia.
Com
grande sabedoria Rubem Alves diz: -“Há muitas pessoas de visão perfeita
que nada vêem. O ato de ver não é coisa natural, precisa ser aprendido”.
Tempos
atrás um amigo me mostrou algumas fotos de uma viagem que fez à
Argentina, e em uma delas ele estava dentro de uma barcaça de rio
pronto para fazer um passeio. Ele me falou sobre a barca, sobre o rio,
sobre o preço da passagem e reclamou que a foto poderia ter ficado
melhor se o dia não estivesse tão cinzento. Enquanto ele falava, a
única coisa que verdadeiramente me chamava à atenção na foto era uma
árvore ainda parcialmente coberta com as mesmas flores púrpuras que eu
via derramadas, às centenas, por sobre toda calçada. Aquela árvore
soberana, frondosa e bela, havia providenciado para os passantes um
belíssimo tapete de flores, colorido como um dia de primavera. Que
importava que o dia estivesse cinzento? Bastava olhar para aquela festa
toda, dividida entre o chão e a árvore, para qualquer tristeza zarpar
na mesma hora. Mas acreditem se quiserem: ele nunca, jamais, tinha
visto as flores e a árvore antes de eu chamar a atenção dele para o
fato. Ele até mesmo ficou surpreso com o fato de existir uma árvore lá!
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Eu
realmente olho sem ver o movimento dos carros na rua, as filas dos
bancos, das lotéricas, dos correios; eu olho sem ver as vitrines sempre
cheias de coisas novas que apenas repetem as antigas em novas cores e
formas; eu olho sem ver as massas que percorrem as ruas como zumbis,
indo e vindo incessantemente, numa aparente alienação que chega a me
cansar.
Mas meus olhos realmente param, vêem, reparam e se
encantam com folhas, pedras, animais e flores quando os encontro num
parque ou jardim (mesmo com os mais minúsculos!); meus olhos se regalam
com as nuvens do céu quando são fofas demais, “penteadas pelos ventos”
ou pesadas e escuras, prontas para deixar desaguar aquele mundaréu de
água sobre esse mundo de meu Deus. Cada curva, cada textura, cada cor,
cada forma exibida pela mãe natureza entra grandemente em mim, e não só
pelos olhos, mas pelos poros. É um tipo de olhar mais pleno, que
observa e repara atentamente. Um olhar mais integral, que permite a
fusão do observador ao objeto observado.
Meus olhos se
enternecem com filhotes de qualquer espécie. Eles, os meus olhos,
também percorrem alegremente a parte mais alta dos prédios da cidade
quando ando pelas ruas, encontrando quase sempre uma janela mais
antiga, uma linha arquitetônica do início do século ou até mesmo outros
olhos atentos, que também olham.
“Os olhos têm que ser educados para que nossa alegria aumente”, eis Rubem Alves de novo.
Sabe
aquela cor que cria água na nossa boca, lembrando-nos de algum sabor
inesquecível? Ela habita o mundo das coisas belas que nos rodeiam e que
nem sempre percebemos, focalizados que estamos em poupar tempo. E são
do mundo das coisas belas também aquela concha com forma bizarra e
original, aquele quadro bonito pendurado na parede, os cachos
redondinhos dos cabelos de uma criança, a mancha de molho de tomate com
forma de borboleta sobre a toalha da mesa, o raio de sol que se
esgueira pelo buraquinho da porta e vem mostrar para nós a poeira
dançarina que habita nosso quarto, os olhos brilhantes daqueles que
amam, as formas sensuais dos instrumentos de cordas, as texturas
variadas que formam os corpos das pessoas.
Se podes olhar, vê;
se podes ver, repara... e assim adentrarás este mundo das coisas belas,
mundo proibido aos de olhos apressados e insensíveis, aos amargos e
rancorosos, àqueles que já perderam de uma vez por todas o contato com
aquela criança interior que vive dentro de cada um e que aponta com
teimosia e fé inabalável para o futuro mais bonito, mais colorido e
absolutamente encantador que ela sabe ser possível. ...
Neste
feriado de sete de Setembro fui para o sul Minas Gerais encontrar
alguns amigos muito especiais para trocar idéias e revitalizar a mente,
abrir a percepção e derrubar antigos conceitos falidos, discutindo
assuntos incomuns e urgentes para nós. E algumas das nossas discussões,
talvez as mais acaloradas, cutucaram aquele meu ladinho mais chato,
mais “crica”, aquele meu lado que olha meio impiedosamente para os
fatos da vida. E assim, eis que me peguei pensando na jornada humana,
traçada a ferro, fogo, suor e lágrimas ao longo da história planetária.
Vejam
só: há quinze mil anos éramos modernos caçando, com lanças de pontas de
pedra afiada, a carne para nossas mesas, nos sentindo digníssimos
exemplares masculinos, plenos de coragem e virilidade; há
aproximadamente oito mil anos éramos moderníssimos ao caçar e guerrear
com lanças e espadas de metal, nos sentindo digníssimos exemplares
masculinos, plenos de coragem e virilidade; há cerca de mil anos, nos
tornamos atualíssimos ao descobrir a pólvora e ao aprendermos a matar à
distância, sem precisar sujar as mãos com o sangue da caça ou do
inimigo, nos sentindo digníssimos exemplares masculinos, plenos de
coragem e virilidade. Hoje disparamos bombas (atômicas ou não),
canhões, metralhadoras, fuzis, gases tóxicos e outras armas poderosas
no planeta inteiro a cada segundo, nos sentindo digníssimos exemplares
masculinos, plenos de coragem e virilidade.
Na verdade, tudo o
que sempre fizemos foi sobreviver belicosamente, provando masculinidade
(para conquistar a fêmea), subjugando o inimigo que nos colocava em
risco, numa busca desesperada de poder, de dominação, de reconhecimento
e aceitação.
Há mais de seis mil anos descobríamos a joalheria e
nos enfeitávamos com milhares de penduricalhos variados, nos sentindo
as rainhas da beleza e da sedução; há mais de quatro mil anos atrás
descobríamos a maquiagem e os óleos embelezadores, nos pintando, nos
embelezando e nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução;
nos tempos do Rococó descobríamos os saltos altos, as perucas e os
espartilhos, nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução;
nos anos 60 do século XX desestruturamos as formas e queimamos sutiãs
nas ruas, nos sentindo as rainhas absolutas da beleza e da sedução;
atualmente, maldizemos a natureza que nos constitui e zombamos dela
furando, cortando, costurando e mutilando nossos corpos para diminuir
isso, aumentar aquilo, imobilizar um músculo, esticar aquilo outro ou
extirpar um pedaço aqui e outro ali, nos sentindo as rainhas absolutas
da beleza e da sedução.
Na verdade, tudo o que fizemos ao longo
dos milênios, foi nos sujeitar a todo tipo de modismo e imposição
estética para sermos desejadas e consumidas pelos homens, numa busca
desesperada de poder, de reconhecimento e aceitação.
Não me
parece, olhando assim meio de relance, que a jornada empreendida pela
humanidade dos tempos pré-históricos aos dias de hoje, tenha sido
coroada por algum êxito maior do que a mera sobrevivência. Antes que
você esbraveje demais já vou avisando que eu concordo - uma
sobrevivência permeada por ocasionais conquistas tecnológicas
agradáveis, por certo, mas que apenas geraram novas formas de conseguir
as mesmas coisas de sempre. Afinal, é claro que é melhor caçar mulheres
com um BMW reluzente do que com um porrete de madeira e é muito mais
agradável seduzir um homem com implantes de silicone nos seios do que
cozinhando ou parindo filhos.
Mudam as moscas, mas a caca continua a mesma.
Acorrentados
às tendências e necessidades humanas atávicas, nós seguimos através das
eras como robôs, criando formas diferenciadas de produzir resultados
cada vez mais sofisticados para atendermos às mesmas necessidades
ancestrais de dominação, sedução, conquista, posse ou destruição.
Exceção
feita aos verdadeiros artistas, seres especiais que seguem uma trilha
paralela e escrevem uma história um pouco diferente a partir de códigos
próprios, nós apenas repetimos padrões, hipocritamente mascarando estas
repetições com rótulos de novidade, talvez para não ficarmos chocados
com nossa falta de originalidade. Na verdade, temos andado em círculos
ao buscar as mesmas coisas de sempre (o poder, o reconhecimento e a
aceitação) da mesma forma de sempre: através da violência, da sedução,
com egoísmo e força bruta, sem solidariedade nem consciência em relação
à vida que fora de nós habita. Se você não me acredita, apenas leia
atentamente todo este jornal que você tem em mãos e assista a todos os
noticiários da TV de hoje.
Para não deixar um gostinho amargo ao
final desta pequena coluna, registro que quero muito crer que as coisas
poderão um dia mudar e que a consciência humana ainda poderá atingir a
maioridade, liberando-se destes condicionamentos ancestrais tão pobres,
limitadores e tristonhos, transcendendo o ego a ponto de realmente
evoluir na direção de uma redenção humana e planetária. Vamos todos
torcer por isto? .
Hoje, 31 de Julho de 2009, estou completando cinquenta anos de idade.
Nossa, meio século! Eu quase não acredito, meu coração estacionou lá pelos vinte e não consegue crer que já chegamos aqui.
E
chego aos cinquenta feliz, inteira, de bem com a vida. É, de bem com a
vida, mas não porque ela me dê tudo o que desejo e penso merecer, e sim
porque estou aprendendo a aceitar as coisas como elas são, sem me
arrebentar por causa disto.
Chego aos cinquenta com o mesmo
olhar estatelado que tinha quando criança. E chego olhando, de dentro
da minha mente, a vida que acontece lá fora como quem olha um picadeiro
a partir da arquibancada. Ocasionalmente eu me viro e vejo ao meu lado
pessoas que me encaram como se eu fosse o palhaço do picadeiro... mas
tudo bem, isso deve fazer parte do processo de vida delas, onde eu
deixo de ser platéia para ser a artista..
Há fios brancos no
meio dos meus cabelos, mas persisto na mania de tingi-los e assim eles
praticamente não são notados. Eles já foram castanhos, louros, já
tiveram luzes, já foram crespos ou alisados. Longos, curtos,
arrepiados, domados, picotados, masculinos... experimentei de quase
tudo em termos de cabelo e sigo encantada vida afora com o fato de que
eles sempre crescem e me dão a oportunidade de reparar algumas solenes
cagadas estéticas, sempre cometidas em nome da vontade de mudar.
Mudar
o que, mudar para quê? Sei lá, só sei que é imprescindível para mim
mudar, nem que seja a marca do xampú. Sem mudanças a vida parece
começar a perder a cor, começar a cheirar mal. Água estagnada, sabe
como é? Parece que tudo começa a criar um depósito de sujeira no fundo,
começa a incomodar...e aí a gente tem que agitar, renovar, filtrar,
fazer um algo qualquer que possa mudar o status quo. E este mudar pode
significar apenas um singelo tosar de madeixas ou, o que no meu caso já
ocorreu muito, descartar tudo aquilo que se é num determinado lugar
para partir para outra num lugar novo, começando do zero com a cara e a
coragem.
Não é muito simples fazer, assim de bate-pronto, um
balanço de cinquenta anos de vida, ainda mais quando se é um ser tão
complexo quanto eu. Nada é muito simples na minha vida e às vezes tenho
a impressão que meus dias todos caminham na contra-mão dos dias ditos
"normais". Tudo o que é simples na vida dos outros na minha acaba por
tomar proporções épicas. Saibam que não é nada fácil ser eu!
Mas
por mais incomum, incômoda, estranha, original e atrapalhada que eu
possa ser ou parecer às vezes, eu afirmo que tenho um pézinho careta
bem plantado no solo da normalidade. Cultivei flores, plantei árvores,
tive filhos de formas variadas (próprios ou importados) e escrevi,
senão livros, muitas e muitas poesias e crônicas que hoje voam por aí,
independentes de mim. Chorei a morte dos meus queridos pais, fiz
amigos, inimigos, me casei, me separei, me casei novamente, tornei a me
separar (com dois homens de sobrenomes idênticos e de profissões
iguais, diga-se de passagem, tipo da coisa que só acontece comigo),
namorei, desisti de namorar, abracei o celibato (se vai durar eu não
sei, mas estou amando!).
Deixei ao longo da minha vida amigos
queridos perdidos no tempo, assim como provavelmente não serei lembrada
com muito prazer em alguns outros ambientes. Bocuda demais, sempre
disse em bom tom e com sinceridade excessiva aquilo que pensava, coisa
para a qual a maioria dos seres não está preparada. Se isso me rendeu
algumas antipatias, é verdade que também cativou pessoas afins e me
proporcionou um sono bom e tranquilo. Não sei mentir, sempre digo a
verdade. No nosso mundo isto é um defeito, por certo... mas ninguém é
perfeito!
Houve momentos em que me afastei demais do caminho da
minha alma, seguindo momentaneamente pelas as trilhas seguras que
outros já palmilharam, sem reparar que minha essência é a do lobo que
segue ao largo dos pastores e dos rebanhos, abrindo por si mesmo seus
caminhos às custas de muita determinação, coragem e desassombro. Nestes
momentos me perdi de mim mesma a ponto de não reconhecer mais minha
própria imagem, a ponto de me tornar mero borrão existencial.
São
cinquenta anos de idade e ainda não sei muito bem o que faço aqui, nem
descobri respostas para a maioria das questões mais cruciais que
habitam minha mente. Mas pressinto que vou indo bem no sentido de
encontrá-las.
Se é que isso serve para alguma coisa, posso dizer
que embora nem sempre eu saiba muito exatamente o que quero da vida,
hoje em dia eu ao menos sei bem o que eu não quero. E eu não quero
sentir raiva nem ódio de algo ou de alguém, não quero solidao, não
quero acordar para apenas sobreviver a mais um dia... quero significado
para as horas, quero prazer para os minutos Também não quero
incompreensão, dias sem beleza, sorrisos falsos e amizades
oportunistas; quero apenas a simplicidade das conversas bobas sem hora
para acabar, os sorrisos da alma, os toques do coração. Quero a comida
feita pra partilhar, a canção cantada a muitas vozes, o olho olhando no
olho, a mão pegando na mão.
Não quero dias mortos, quero
celebração; não quero artificialismos, quero a coisa genuína. Não quero
roupas caras nem ambientes sofisticados, quero só o aconchego da
amizade e a sinceridade das dores e dos sonhos humanamente
compartilhados.
Se eu morresse amanhã com certeza partiria sem
dor, sem pena, sem a sensação de ter deixado para trás algo incompleto
ou mal feito. Sei que fui sempre inteira no que resolvi fazer, que fui
sincera nas minhas colocações e que fui ao limite das minhas curtas
pernas. Nada teria a lamentar partindo hoje, muito menos a temer, pois
ao aceitar minha falibilidade e minha pequenez humanas eu descobri que
não posso tudo, e assim sei que o pouco que eu posso fazer eu sempre
faço da melhor forma que consigo fazer. E então arrepender-me de que?
Temer o que? Lamentar o que?
É isso... e agora você deve estar
se perguntando porque foi que eu enviei este texto meio doido para
você. Oras, é muito simples: você é em parte responsável por tudo
aquilo que eu sou hoje. Em maior ou menor grau, para o bem ou para o
mal (figura de linguagem, meu amor, pois bem e mal não existem, são
apenas conceitos criados a partir do nosso pequeno ponto de vista) você
me ajudou a crescer, a refletir, a sobreviver, a me tornar. Este "vir a
ser " não seria o mesmo sem a sua presença nos meus dias e com certeza
haveria um lacuna em mim sem a sua contribuição. Foram os nossos muitos
"ontens" que possibilitaram este hoje que eu agora vivencio.
Voce
deve ser aquele ou aquela que me ensinou a crer, ou a descrer... deve
ter feito com que eu risse ou chorasse, deve ter me indicado um livro,
um filme. Quem sabe você teria me dado uma receita de algo delicioso?
Talvez você seja aquele tipo de amigo especial que ouviu minhas
lamúrias chatas nos meus tempos mais confusos...ou um dos que
compartilharam comigo aqueles três anos duros da minha fratura. Ou,
quem sabe, foi um amigo da adolescência, da mocidade? Você pode ser
aquele ou aquela que, ostentando o nome de filho ou filha, de irmão ou
irmã, primo ou prima, veio para perto de mim para partilhar os dias com
mais intimidade, com trocas mais intensas. Pode ser alguém que tocou e
cantou comigo, dividindo entre sons momentos nos quais pudemos entrever
o paraíso. Ou ainda você pode ter sido quem estava ao meu lado nos
momentos em que uma bobeira qualquer acabou em risadas ou em alguma
pequena calamidade.
Na verdade não me importa qual sua participação na minha vida, pois sei que de alguma forma ela foi preciosa.
E
por isso eu lhe agradeço: MUITO OBRIGADA! Obrigada por estar ou ter
estado ao meu lado, aturando amorosamente este todo incoerente (porém
belo) que eu sou. Muito obrigada pela partilha, pelo aviso, pelo puxão
de orelhas, pelo riso fácil, pela lágrima compartilhada, pelo livro
emprestado, pela grana na hora mais difícil, pelo auxílio nos momentos
críiticos, pelo presente de ontem, pelos sonhos de amanhã.
. Noutro
dia, para não variar, eu fui à cidade para resolver alguns daqueles
probleminhas cotidianos que aborrecem a todos nós: pagar contas,
comprar alguma coisa que falta em casa, ir aos correios e etc. Andava
pela calçada meio apressada, em busca de economizar alguns minutos
preciosos, quando os ouvi... e seus sons me alcançaram bem antes de os
olhos poderem vê-los. Daí os ouvidos me cativaram e convenceram-me (sou
muito fácil de ser convencida por sons!) a mudar de rota, guiando-me em
direção à praça, quando o que eu queria mesmo era ir ao banco, situado
um tanto ao lado. . Cercados pela agitação popular, que sempre
invade a praça no meio da tarde, é que eu os vejo: são três homens no
palco ao ar livre e, embora eu não saiba ao certo se são peruanos,
bolivianos ou equatorianos, tenho certeza que vieram dos Andes, pois os
traços são inconfundíveis. Vieram de longe, com certeza, e vieram
trazendo na bagagem aquela música inimitável, inigualável, aqueles sons
envolventes e místicos que fazem a maior festa na minha alma. . Vieram
com flautas de todos os tipos: quenilla, quena, quenacho, samponhas de
vários tamanhos diferentes, ocarinas e mais; a percussão, toda feita
ali, ao vivo, na mão, contava com pequenos assobios de pássaro, com
carrilhões de sininhos, chocalhos e outras coisas que mal conheço;
tinham também um charango (pequeno instrumento de 10 cordas) e mais uma
infinidade de fontes sonoras que, reunidas em execuções magistrais,
conseguiram me transportar aos cumes de Machu Pichu num passe de
mágica, como por encanto! . Vestindo trajes nada tradicionais,
pareciam-se mais com indígenas norte-americanos cheios de cocares do
que com digníssimos descendentes dos Incas, o que provavelmente são.
Imagino que se vistam assim porque, graças a Hollywood, os indígenas
norte-americanos são reconhecíveis a milhas de distância e, como suas
roupas chamam muito a atenção, a probabilidade de fazer sucesso é bem
maior. Mera estratégia de marketing: quando são identificados
rapidamente conseguem atrair mais atenção e, consequentemente vendem
mais seus cds e produtos típicos! . Não eram assim tão jovens:
dois deles já exibiam muitos fios de cabelos brancos em meio às vastas
cabeleiras, amarradas em disciplinados rabos de cavalo, mas se
desdobravam, tocando apaixonadamente seus instrumentos, alternados
constantemente para colorir e enriquecer as melodias com harmonias e
sons interessantes... (falar mais sobre estes homens que vivem da sua
arte, que encarnam seus sonhos sem submissão ao sistema alienado que
nos cerca é um capítulo à parte, vou deixar para outra ocasião). . Em
meio às dezenas de pessoas que, das calçadas, olhavam admiradas o
pequeno show vespertino, uma garotinha de uns dois anos se maravilhava
com os sons, com as formas, com os movimentos no palco e não despregava
os olhos um segundo sequer dos músicos à sua frente. Ela oscilava,
muito bonitinha, para lá e para cá, ensaiando uns passinhos ritmados
que pretendiam ser uma dança. Os olhinhos dela brilhavam e, de vez em
quando, ela se virava para nós, que estávamos mais abaixo, como que
para se certificar que todos estavam prestando atenção àquela coisa
maravilhosa que ela via e ouvia, para ter certeza de que ninguém estava
perdendo um segundo sequer de toda aquela beleza... (talvez ela
tivesse, em algum cantinho do seu pequeno ser, a intuição da
importância daquela música, das centenas de anos de cultura andina que
se exibia ali, naquele espaço e naquele momento). . Mas bonito
mesmo era quando eles terminavam uma música e ela abria os bracinhos,
alinhando as palmas das mãozinhas para aplaudir. Antes de bater a
primeira palma, ela olhava para trás e via se alguém mais ia aplaudir
e, assim que soava a primeira palma, ela desatava um aplauso sonoro e
alegre, feliz e espontâneo, como deve sempre ser a festa da alma de uma
criança diante de algo tão belo. . Os músicos, muito bons por
sinal, venderam muitos cds (eu comprei um, claro!), assim como flautas
e objetos de decoração, todos lembranças que algumas pessoas carregarão
para sempre em suas vidas. Mas aquela garotinha em especial, embora não
tenha comprado nada, com certeza carregará para sempre dentro de si uma
lembrança de maior valor: o dia em que ela festejou, sob um céu de puro
azul e no meio da praça central, sua descoberta pessoal da beleza, da
música, do encanto de que são capazes aqueles sons que viajaram
centenas de anos e milhares de quilômetros para encontrá-la ali, tão
pequenina, naquele exato momento da sua vida. .
Em
minha coluna semanal no Diário de Taubaté eu sempre veiculo textos que,
de alguma forma, têm ao menos um pézinho na internet. E é o caso deste
excelente texto que transcrevo abaixo, texto que nos desperta a atenção
para as verdadeiras motivações que definem nossos hábitos de consumo,
que nos sacode do comodismo da repetição de fórmulas e escolhas no
dia-a-dia, motivando-nos a pensar mais antes de comprar, de comer, de
escolher onde gastar nosso suado dinheirinho.
Leiam com calma e com atenção, eu garanto que vale muito a pena.
A
explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as
guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho
provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A
gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece
não ter limites no tempo nem no espaço.
Mas
a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque
está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a
festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos
pratos quebrados que deve pagar.
A
expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo
sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos
e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo,
requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e
da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a
todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre
compradora. Mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura
começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para
ter coisas , termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que
geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes,
materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de
poucos, afirma ser a liberdade de todos.
Dize-me
quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as
flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as
flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais
rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as
galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de
comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom
para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA
consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas
que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas
proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa
quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da
população mundial.
«Gente
infeliz, essa que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de
Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango,
deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem.
«Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no
bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade
dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as
marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para
pagar as prestações».
Invisível
violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a
uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca,
impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta
ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que
qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de
vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O
consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde
quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo
a revista científica The Lancet, na última década a «obesidade mórbida»
aumentou quase 30% entre apopulação jovem dos países mais
desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou
40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de
Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as
comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a
maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do
carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da
telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.
Vence
o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os
paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os
costumes do bom comer, que vêm de longe, contam, em alguns países,
milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um
patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não
apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade
cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo
fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do
hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em
escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras
fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha:
direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
A
Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras
coisas, que o cartão Mastercard tonifica os músculos, que a Coca-Cola
proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode
faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s
dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta
inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente
conquista dos países do Leste Europeu.
As
filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas
e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência
quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa,
que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a
liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim,
um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997,
alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília,
tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o
restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma
pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna
do Guinness.
As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.
Qualquer
um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite.
No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo
todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e
cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de
consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito
pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a
palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da
vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para
todos.
Pobres
e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo,
e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou
qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar asmercadorias em
mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos
humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te
beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da
solidão o mais lucrativo dos mercados. Os buracos no peito são
preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as
coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão
social, salvo-condutos para atravessar asalfândegas da sociedade de
classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas,
melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das
multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz
isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial
consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este
creme de barbear, você quer se transformar em quem?
O
criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são
fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética
individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide
decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi
dizer que o dinheiro não trás felicidade; mas qualquer pobre que
assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro
trás algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
Segundo
o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos
de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os
primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial
torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina
temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores
cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna
de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os
subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas partes, mas por
experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.
As
cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos
campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas
cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira
coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os
braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros
são o ar e o silêncio.
Enquanto
o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em
Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «porque
as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas,
quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O
desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as
pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre
coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?
O
mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão,
na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta
invadem e privatizam os espaços públicos. Os terminais de ônibus e
as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de
encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de
exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de
todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões
concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo.
A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos
não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao
bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e
desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem
como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e
ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do
interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da
felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas
internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da
estátua do prócer na praça.
Beatriz
Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center,
ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio
do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela
excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e
penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma
festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias
inteiras empreendem a viagem na cápsulaespacial que percorre o universo
do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante
de modelos, marcas e etiquetas.
A
cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade
midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada à serviço
da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos,
para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o
único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para
não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o
trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava
lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um
desempregado em potencial.
Paradoxalmente,
os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais
bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem
idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do
espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo. Os
donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria
de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de
nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas
e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para
qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar
na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas
porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A
sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.
Aqueles
que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um
que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas
consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a
existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um
erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade
essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do
tamanho do planeta.
(Eduardo Galeano é autor do livro " Veias Abertas da America Latina").